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Manejo Preservacionista do Açaí
O Nascimento do Açaí
Carga de Energia

Alimento básico das populações ribeirinhas da Amazônia, a fruta ganha mercado nas demais regiões brasileiras, em função de suas qualidades nutritivas.

Indivíduo (batizado, Orlando de Nazaré Pereira), não tem medo da boiúna, a senhora de todas as águas que, assumindo forma de cobra ou de embarcações, afunda barcos e engole os náufragos nos rios e igarapés da Amazônia, atemorizando as populações ribeirinhas. Ele a respeita mais que as deidades da floresta, mas não teme um confronto com o monstro, cuja jurisdição assombrosa cobre mais de 3 milhões de quilômetros quadrados de área, correspondente à imensa malha líquida tecida pelos grandes rios do norte do país e seus afluentes. "O que tiver que ser, será", diz, fatalista, embora admita algumas precauções para evitá-lo. Pede, por exemplo, permissão para encostar seu barco, o Deus Proverá, de 78 cavalos de força e 3 toneladas de capacidade de carga, quando, vencido pelo cansaço, vê-se obrigado a pernoitar à margem de algum igarapé, igapó (mata de várzea coberta com água) ou furo (comunicação natural entre dois rios ou um rio e um lago, transitável em época de cheia) do sul da ilha de Marajó, PA, um dos maiores santuários do planeta, com 50 mil quilômetros quadrados, onde vive.

Indivíduo afirma que só tem medo do sono que, às vezes, chega sorrateiro como a cobra, colocando sua vida em perigo. Caboclo ribeirinho de 27 anos, nascido no estirão da Bela Vista, em Muaná, município de 23 mil habitantes (70% dos quais vivem na zona rural), ele é um dos milhares de paraenses que, como seus irmãos Wilson, o Animal, e Raimundo, o Diquinho, ganham a vida coletando, transportando ou vendendo açaí, uma frutinha arredondada, de cor predominantemente roxa, quase preta, típica do estado.

Instituição cultural

O açaizeiro (Euterpe oleracea mart) é uma palmeira característica das várzeas e margens dos rios amazônicos. De estipe (tronco) delgada, pode atingir até 30 metros de altura. Suas folhas, de coloração verde-escura, chegam a 2 metros de comprimento. As flores desabrocham de setembro a dezembro, época da "seca" (de fevereiro a maio, período de maior precipitação em Marajó, dois terços da ilha ficam submersos), embora possam aparecer o ano todo. A fecundação é feita por besouros, que carregam o pólen das flores masculinas para as femininas. Cada palmeira produz de três a quatro cachos. Cada um deles, de 3 a 6 quilos de frutas. A semente pode ser usada para plantio mas geralmente é descartada pela população, que prefere deixar a dispersão por conta de tucanos, papagaios e outros pássaros que se alimentam da fruta e deixam o caroço cair na mata. Da planta, aproveita-se tudo, principalmente palmito e frutas, das quais se extrai o vinho, ou suco.

Verdadeira instituição cultural no Pará, o vinho - o caldo obtido com a maceração da polpa da fruta - está presente nos costumes e nas manifestações musicais e artísticas da população. In natura ou misturado com farinha d'água, farinha de tapioca ou açúcar, é consumido todos os dias pela população como complemento de sua alimentação diária, após as refeições, ou como acompanhamento de peixes, arroz, feijão, charque e demais pratos da culinária regional. O Pará responde por 95% da produção nacional, calculada em 130 mil toneladas, segundo a Secretaria da Agricultura do Estado.

Apenas na cidade de Belém são consumidas 180 toneladas/dia de açaí, servido em copos, como refresco, ou em tigelas, como mingau. Há alguns anos, o vinho era apenas uma referência exótica no sul do país, assim como suco de cupuaçu, murici, taperebá, tucumã, piquiá, uxiu, mari, sapota e outras frutas amazônicas. Recentemente, porém, conquistou adeptos em todas as regiões, em função de suas qualidades energéticas. Rico em minerais, vitaminas e antocianinas, substâncias que podem combater o colesterol e os radicais livres, vem sendo consumido por atletas e representantes da chamada geração saúde. No Rio de Janeiro, o mercado atinge 500 toneladas por mês, principalmente no verão. Em São Paulo, os números são mais modestos (150 toneladas/mês), mas a tendência é de crescimento.

Divisão de extrativismo

Em parte, a responsabilidade é de Indivíduo. Sócio de José Ribamar Magalhães, o Zeca Pote, um muanense de 47 anos, dono de terras e da Casa Cajubinha, armazém do tipo "tem-de-tudo" (alimentos, material de pesca, medicamentos, gasolina, motosserra, peças de reposição para barcos, cerveja etc.), erguido à beira do Rio Cajubinha, ele singra todos os dias os rios Atatá, Cujuúba, Atuá, Anabijú, Capitariquara, Pracuúba e outros, arrecadando açaí. Na entressafra, que vai de fevereiro a maio, demora até uma semana para conseguir uma barcada (um barco cheio; o Deus Proverá carrega 200 paneiros, no máximo) e precisa, freqüentemente, dormir n'algum remanso. "De ruim, tem o cansaço e a dor nas cadeiras depois de horas acordado. No mais, gosto muito dessa vida", diz ele, revelando que, quando o sono aperta, toma açaí com guaraná para não perder a proa. Mesmo assim, já dormiu no leme e acordou na margem. "Podia ter morrido", lembra.

A maioria dos ribeirinhos mora em terras de terceiros, como Zeca Pote, com os quais divide os lucros do extrativismo. De agosto a dezembro, época de maior oferta da fruta, a "lata" de açaí (um paneiro, cesta feita com fibra de jacitara ou jupati, com capacidade para 14 quilos de frutinhas, usada como medida-padrão na Amazônia) vale 1,50 real no pé do açaizeiro, independentemente do tipo: verde (também chamado de vitrin ou branco), paral (mistura de verde e preto), cinzento, tuíra (entre o cinza e o preto) e preto. No período das cheias, chega a 4 ou 5 reais. Metade fica com o peconheiro (aquele que usa a peconha, laço de embira ou de plástico preso aos pés para subir pelo tronco e cortar o cacho com seu terçado), metade vai para o bolso do dono das terras.

A Casa Cajubinha é ponto de passagem obrigatório na região. É onde os viajantes ancoram, antes de pegar a gaiola para Belém, distante 80 quilômetros dali em linha reta (a viagem dura seis horas e meia, em média). Onde a população abastece seus casebres e enche os tanques de suas rabetas, voadeiras e demais barcos a motor, em busca de refúgio à noite, fugindo dos piratas. Onde, todo dia, Indivíduo lista o carregamento de açaí, antes de entregá-lo no trapiche da Muaná Alimentos Ltda., da qual é fornecedor habitual.

Consumo imediato

Instalada há dois anos no município, a empresa compra frutas de 60 peconheiros através de associações de produtores rurais. Para eles, a Muaná é uma garantia de mercado, embora, nessa época do ano, a oferta da fruta supere freqüentemente a procura. Nesse caso, os ganhos dependem das demandas regionais e da tradicional feira do açaí de Belém, para onde afluem centenas de barcos de todos os tipos, tamanhos e procedência. Fruta de rápida fermentação, o açaí tem de ser processado rapidamente, não resistindo mais do que 24 horas sem refrigeração.

Todos os dias, antes do nascer do sol, 10 mil paneiros abarrotados com a frutinha são expostos na feira da capital paraense, nas proximidades do mercado Ver-o-Peso, e vendidos rapidamente. Em média, a lata custa 1 real a mais do que o valor pago no açaizal, exceto na hora do apavoramento (por volta das 6 da manhã), quando, por falta de lances, o preço despenca. Na entressafra, o lucro varia de 2 a 4 reais, mas a oferta, obviamente, é menor, e nem todo mundo arrecada o suficiente para zarpar até Belém.

Segundo técnicos, o açaí de melhor consistência, cor e sabor vem da região delimitada pelo estuário dos rios Amazonas, Tocantins e Pará, onde fica a Ilha de Marajó e, a sudeste dela, a cidade de Muaná, vocábulo herdado de uma tribo homônima que significa, em tupi, "semelhante à cobra". Não é coincidência, na opinião de Indivíduo. Pessoalmente, ele nunca viu a boiúna nem conhece quem a tenha enfrentado e escapado vivo, mas lhe reconhece os rastros. "Quando um juntamento de galhos, folhas e tocos aparece boiando de repente, é sinal de que ela está se acomodando no fundo do rio", explica. Dizem que ela mora no Rio Atatá, bem no coração de Muaná.

A população de Los Angeles, na costa oeste dos Estados Unidos, já pode pedir açaí (na verdade, mix de açaí com guaraná ou com outros produtos energéticos) em português. Basta falar ah-sigh-ee, transcrição fonética do termo original (em tupi, yasa'i quer dizer "planta que chora", ou que verte água) utilizada pela Muaná Alimentos para popularizar o nome da fruta no país. No início deste ano, a empresa enviou 100 quilos de polpa para testes no mercado norte-americano; depois, mais 400 quilos e, no mês passado, 5,5 toneladas de polpa adoçada e 1 tonelada de polpa pura para academias de ginástica e lanchonetes daquela cidade.

Embarcados em Belém, os lotes foram processados, congelados, adoçados e embalados em baldes plásticos de 3 quilos com a grife "Açaí" em destaque e, abaixo dela, a inscrição ah-sigh-ee, de forma a acostumar paladar, língua e ouvidos californianos. Em setembro, dois representantes norte-americanos visitaram a fábrica, interessados principalmente na mistura de açaí com guaraná que, segundo eles, tem mais chances de emplacar por lá. É uma espécie de "vitamina tropical". A empresa também fez contato com importadores da Europa e da Ásia, possíveis compradores da fruta. Se a experiência der resultado (se os mercados norte-americano e europeu aprovarem), as exportações nacionais podem explodir em poucos anos, favorecendo produtores, transportadores, comerciantes, indústrias e populações ribeirinhas que dependem dos recursos gerados pela exploração dos açaizais.

Los Angeles, assim como as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde o consumo de açaí marajoara vem crescendo, é uma metrópole com uma concentração expressiva de esportistas, gente que valoriza produtos e práticas saudáveis, como manejo sustentado na produção de alimentos. Com escritório em São Paulo e fábrica no terreno da Agroindustrial Ita, que, desde 1980, processa palmito de açaí na região (as duas empresas pertencem ao mesmo grupo; a médio prazo, a Ita deve ser absorvida), a Muaná Alimentos tem como sócio minoritário (49%) o Fundo Terra Capital, organização internacional que destina verbas do Banco Mundial, do governo da Suíça e de outros investidores a projetos ecologicamente corretos (a gestão financeira é da A2R, companhia de administração de recursos sediada na capital paulista). No ano passado, a empresa faturou 4 milhões de dólares com a produção de 540 toneladas de palmito de açaí (volume correspondente a 1,8 milhão de potes de vidro de 300 gramas) e 250 toneladas de polpa.

O Brasil é o maior produtor, consumidor e exportador de palmito em conserva do mundo. De acordo com a Anfap - Associação Nacional dos Fabricantes de Palmito, o país responde por 85% da oferta mundial (o restante sai das plantações e áreas nativas na Costa Rica, Paraguai, Bolívia, Equador e Peru). Noventa por cento da produção nacional, calculada, no ano passado, em 28 mil toneladas, vêm da Amazônia, principalmente do Pará (os outros 10%, de Santa Catarina e do Paraná). A meta da empresa, porém, é inverter o mix de produção: 1.800 toneladas de polpa de açaí e 1.200 de palmito em conserva em 2003, triplicando o faturamento, segundo seu diretor comercial, Georges Schnyder Jr. A Muaná possui cinco mil hectares de açaizais (também colhe palmito e açaí em 3 mil hectares de terras arrendadas comprando, eventualmente, de terceiros), além de uma área de 400 hectares de preservação permanente, utilizada como referência no trabalho de manutenção da biodiversidade na ilha. O objetivo, no entanto, é chegar a 35 mil hectares em cinco anos, dos quais 28 mil serão manejados, diz Schnyder.

De olho no mercado externo e no crescimento da demanda interna por alimentos saudáveis, a empresa vem investindo em técnicas de manejo sustentado obrigando-se, por contrato com seus fornecedores, a adotar métodos de cultivo que garantam a biodiversidade da floresta e repassá-los às comunidades. Segundo ele, é com a seleção correta das plantas para a produção dos frutos e do palmito, com a escolha das sementes, bom manejo e técnicas racionais de desbaste que se consegue aproveitar lucrativamente os açaizais. Os palmiteiros mantêm obrigatoriamente em cada palmeira três estipes adultas, três jovens e três brotações, de forma que haja sempre o que colher (a palmeira de açaí nasce em touceiras com cerca de seis troncos, ou estipes, no alto dos quais, envolto em cascas, fica o palmito).

De cada tronco, brotam até quatro cachos, onde pendem os frutos. Num ano, o corte é feito nas estipes adultas; no ano seguinte, nas jovens (que, então, serão adultas); e, no terceiro, nas brotações, que terão crescido até o ponto de colheita. Cultura perene, o açaizeiro tem um ciclo ideal de 12 anos. Depois, continua a frutificar, mas a produção diminui.

Por conta do manejo adotado e outros conceitos de sustentabilidade agronômica, a Muaná deve ganhar este ano o aval do FSC - Forest Stewardship Council, a principal entidade certificadora de produtos florestais no planeta, representada no Brasil pelo Imaflora - Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola, reconhecido internacionalmente. "Essa qualificação significa respeito à Muaná em todo o mundo", ressalta Schnyder, lembrando que o processo de certificação é baseado em três vertentes: tem de ser ecologicamente correto, economicamente viável e socialmente justo.

Além do manejo ecológico, a empresa vem desenvolvendo programas sociais nas comunidades ribeirinhas, como o projeto Açaí Marajoara, em parceria com o governo estadual e as prefeituras de Curralinho, São Sebastião da Boa Vista, Ponta de Pedras, Cachoeira do Arari e Muaná. Lançado em maio, o projeto visa garantir a sustentabilidade econômica das associações comunitárias através de cursos de capacitação profissional, formação de agentes de desenvolvimento e outras ações. "Hoje em dia, não basta apenas investir no produto", diz Schnyder, lembrando que o conhecimento técnico sobre manejo florestal ainda é incipiente. "O desafio do futuro é explorar os frutos da Amazônia de maneira racional, preservando-os para as próximas gerações", conclui.

Fonte: Revista Globo Rural. Edição 181 de Novembro de 2000

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